As flores não entram apenas para decorar

As flores não entram para decorar

O arar… adubar, aguar… enraizar, dizem tanto de mim. E por anos, o florescer não fez parte da minha vida. Só o tempo que me foi dado de presente, é que tornou meu florescer, hoje, tão lindo… então hoje, venho contar um pouquinho sobre isso, O TEMPO. Mas o que será que ele, tem a ver com flores e/ou decoração???

Vivemos olhando o relógio……O tempo marcado, contado, medido.
A hora de sair.
A hora de chegar.
A hora que acaba.

Existe um tempo que nos atravessa todos os dias, o tempo de Chronos, o tempo cronológico, o tempo do relógio.

Mas uma vez li sobre uma outra percepção: Kairós.
Um tempo que não se mede. Um tempo que se sente. O tempo de uma conversa que passa rápido demais. O tempo de um abraço que parece suspender o mundo.
O tempo de uma oração. De uma prática de yoga. De caminhar em silêncio. De observar o rio seguir.O tempo que não se conta. O tempo que nos marca. Um tempo que não nos atravessa, mas que nos marca, um tempo de qualidade, mesmo continuando sendo tempo, e claro, passando. Tic, tac.

E talvez seja justamente aí que mora o verdadeiro sentido da beleza.
Porque o tempo passa. E ele vai passar de qualquer forma.

Mas existem maneiras de se apresentar diante dele, diante do TEMPO……Podemos deixar que ele apenas atravesse a vida… ou podemos escolher transformá-lo em permanência.

É aí que entram os pequenos gestos.Uma mesa posta sem pressa. Flores na entrada de casa.
Um cheiro que faz alguém lembrar. Uma música que devolve uma memória.
Uma mandala pintada no casamento da avó.
Um arranjo que não enfeita… acolhe.

A grandeza do amor quase nunca está nos grandes acontecimentos. Ela mora nas pequenas e gratuitas atitudes do dia a dia.
No cuidado silencioso. Na presença. Naquilo que parece simples, mas sustenta tudo.

Talvez por isso eu tenha encontrado tanto sentido no meu trabalho com flores.
Porque elas nunca entraram para decorar.

Elas entram para criar vínculo. Para transformar um espaço em abrigo.
Uma casa em memória. Uma celebração em permanência.
Elas convidam o olhar a desacelerar. Convidam a reparar.
A sentir. Flores são quase uma forma de oração.
Uma maneira delicada de dizer: “isso importa.”

E talvez o maior presente que eu poderia receber da vida
fosse exatamente esse: um trabalho onde tenho permissão para acessar o mais bonito que existe no outro.
Um trabalho onde posso criar um espaço seguro para acolher e ser acolhida.
Um trabalho onde posso ver …. e me sentir vista.

Porque no fim, não estamos aqui para marcar o tempo.
Estamos aqui para deixar o tempo nos marcar. E talvez florescer seja justamente isso: não impedir que o tempo passe, mas escolher com amor o que permanece. Porque no fim…

não é sobre anos de vida. É sobre anos vividos.

ISAMARA Girardeli
FLORES NATURAIS DESIDRATADAS

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